Eu não sabia

Publicado: 02/07/2018
Texto bastante reflexivo porém, de autoria desconhecida, que nos faz pensar em como a nossa relação com os animais pode mudar de acordo com os valores que nos são transmitidos desde a infância até nossa vida adulta.


No início de julho de 1990, foi publicado um artigo em um jornal de Halifax sobre um pescador de 61 anos, da Nova Scotia (Canadá), que bateu com um porrete em um tartaruga-de-couro cuja espécie está ameaçada de extinção e que foi capturada na rede de pescar. O animal foi golpeado 6 vezes na cabeça com um martelo e um remo, foi arrastado até a praia, onde foi liberado da rede e nadou de volta para o mar gravemente ferido.

"Eu não sabia que não era para matar" - foi o que o pescador disse em sua defesa.

Pessoas como esse pescador são muitas no mundo. Isso nos faz imaginar como essas pessoas cresceram da infância, quando o afeto e a empatia pelos animais é maior, para a idade adulta na qual matar é a primeira e única reação quando em conflito com um animal.

Tão logo a criança nasce, inevitavelmente, alguém vai colocar um bichinho de brinquedo no berço antes da criança ser posta para dormir nele. Na maioria das vezes, esses bichinhos não são apenas brinquedos - eles são amigos que dão proteção e conselhos. Além dos animais de brinquedo, acrescentam-se inúmeras estórias para crianças tendo animais como personagens centrais - animais que ensinam as crianças o que é certo e o que é errado, bem como ensinam boas maneiras, bondade e justiça.

Então, um dia, essa criança fica confusa por ter sido posta de castigo pelos pais por ter atirado uma pedra no cachorro do vizinho - e mesmo assim, descobre que o Papai envevenou aqueles cães vadios que costumavam passar ali por perto e furar os sacos de lixo. Descobre que há um passarinho na casa que não pode usar suas asas porque é mantido em uma gaiola pequena e bonita. E descobre que a mamãe tem uma coisa pendurada no cabide do armário que se parece muito com o cachorro do vizinho.

E um dia, a criança chega em casa e pergunta se é verdade o que a professora disse: que o hambúrguer vem das vacas que são mortas e que aquele caldo vermelho que os pais disseram que era "parte do bife", na verdade é sangue. E a criança ouve que não é para ela se preocupar com isso porque é para isso que os animais "servem".

Então, em outro dia, a Mamãe guarda ou joga fora seus bichinhos de pelúcia, o Titio aparece e põe uma espingarda de caça nas mãos dessa criança de 12 anos, dizendo que ele vai aprender como acertar com um só disparo, os passarinhos.

E não muito depois, na escola, os hamsters, camundongos e coelhos - que essa criança se lembra de vê-los brincar no jardim de infância - estão flutuando em jarras de formol nas prateleiras da sala durante a aula de biologia e o professor ensina a maneira correta de matar o sapo antes de cortá-lo em pedaços para aprender as maravilhas da vida.

E antes dessa criança se tornar adulta, ela aprendeu que os animais de verdade são infecciosos, mal-cheirosos, perigosos e não merecem respeito. Ela aprendeu que os animais estão no mundo para a sua gratificação, e que as lições valiosas que aprendeu em sua infância só se aplicam a humanos.

Então essa criança se torna o pescador de 61 anos, que fica tão surpreso quando uma criatura que compartilha o mar com os peixes aparece em sua rede, que sua única solução foi golpear a cabeça da criatura até que ela se abrisse.

E tudo o que seus pais, seus professores, sua sociedade e sua religião ensinaram a essa criança em todos os anos de sua vida pode ser resumido nessas 8 palavras:

"EU NÃO SABIA QUE NÃO ERA PARA MATAR."

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